lésbica feminista encantada

Sunday, November 07, 2010
Diária

Quando a minha prima sapatão morreu meu pai estava viajando. Meu pai gostava muito dela e a tratava como homem. Do jeito dela, penso hoje, ela arranjou um espaço dentro da nossa família homofobica. Ela morreu tentando viver. Da forma mais inconseqüente possível, ela queria viver. Morreu. Meu pai não foi ao velório. Quando meu pai chegou, alguns dias depois e contaram pra ele o reparei chorando na varanda. Eu sabia que ele tava triste pra caralho. Fui com ele até a casa da minha tia. No velório dela cantaram uma musica que eu nunca tinha ouvido. Eu inha uns 8 anos. A musica me marcou, porque era singela, doce, fraca, sabe? "Segura na mão de Deus, Segura na mão de Deus, pois ela te sustentara..." Achei bonita, não por ser deus, mas por ser mão. "Não temas, segue adiante, e não olhe para trás. Achei muito bonita." Enquanto eu voltava da casa de minha tia, com meu pai. Depois de eles terem sofrido juntos aquela dor que já tinham sofrido a sos. Estávamos perto da minha casa e meu pai começou a cantar a musica. A musica do velório, a musica que tinha me marcado tanto. Naquela hora eu não sabia como aquela musica era velha, como ela era tão conhecida. Fiquei completamente surpresa. Por que tinha uma mágica. Meu pai segurava na minha mão e cantava a musica que falava de mãos. A mão de meu pai sempre foi a mão de Deus. Diária, eu sinto que o modo como eu sou as vezes fere quem me ama. Eu sinto que tem gentes no mundo que me amam! Mesmo sem querer ferir, eu faço. Isso me acaba mais do que qualquer outra coisa. Mas, a duras penas, eu aprendi que não dá pra pedir desculpas por ser quem eu sou. Joguei fora os “sinto-muito” do meu eu. Contei essa historia do meu pai porque acho que foi o grande momento transcendental da minha infância. E por que queria contar como gosto do meu pai, apesar de feri-lo tantas vezes por ser eu. Diária, tem segredos que são irreveláveis, não? Diária, será que Camila vai entender onde eu quero chegar se eu conversar isso com ela. Será que se eu contar do mesmo jeito que conto pra vc, ela vai entender? Será que ela vai entender que o que eu quero dizer é que ela pode segurar na minha mão?

Posted at 08:05 pm by natalia nega

 

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Olhei no espelho e comecei a rir de felicidade! Tinha conseguido abrir a pele da semente e estava subindo dentro da terra. [...] Meu cabelo era uma dessas criações estranhas, incríveis, surpreendentes, de parar o tráfego – um pouco parecido com as listras das zebras, com as orelhas do tatu ou os pés azul-elétrico do mergulhão – que o universo cria sem nenhum motivo especial a não ser demonstrar sua imaginação ilimitada. [...] O teto no alto do meu cérebro abriu-se; mais uma vez minha mente (e meu espírito) podia sair de dentro de mim. Eu não estaria mais presa à imobilidade inquieta, eu continuaria a crescer. A planta estava acima do solo. Alice Walke

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