lésbica feminista encantada

Saturday, July 16, 2011
o quarto dela

Quarto vazio. Sem cama, sem armário, sem tapete, sem cortina, sem lençol. Só o chão desprotegido e nu. Só as paredes se, artificio, mal pintadas, desmarcadas. Todas as paredes iguais. Estranhamente parece com o que eu sinto por dentro. Me vejo ali, naquele quarto sem nada, sem desejo, sem sonho, sem noites perfeitas, sem gozos, sem nada. Trago na mão uma canastra com papéis coloridos, panos estampados, duas almofadas macias e bonitas, bordadas com palavras que sempre bordo ou pinto nos lugares. Trago um frasco de alfazema e o antigo retrato de Iemanjá para deixa-la olhar junto comigo. Com um único presente: a porta. E como já usei para entrar, ela agora tem o nome "porta de saída". Nesse quarto só se entra uma vez se, por acaso me encontrar novamente entre aquelas paredes é porque não saí, mas saindo, não tenho mais como entrar. A porta se abre para mim. Duas vezes, entro e saio, entro se quiser, por que sabia ou por curiosidade. E saio por não ter onde ficar, onde sentar, onde deitar. Não quero mas esperar no chão frio do quarto do amor dessa mulher. Só posso reabrir a porta de saída uma vez. O quarto se fechará, tornará a ser habitado por nada, como ela quer. Um quarto vazio, sem porta, quase deixa de existir, quase desaparece da realidade. Ele existirá como a lembrança de um desses sonhos angustiantes que temos e que lembramos vagamente pela manhã, que deixa só a desconfortável lembrança da angústia, o vazio de não lembrar o que era. Estou parada, olhando a porta, ouvindo vozes de minhas irmãs, minhas filhas, minhas mães que soam como se tentassem conversar comigo em torno do quarto. O som das vozes delas é sempre baixo. Eu me confundo tentando ouvir, entender, conversar, pedir ajuda. As vozes delas não me guiam. Estou parada diante da porta, com o pé flutuando no ar, sem saber se piso em frente e saio ou se espero, mas uma noite, por ela.

Posted at 02:17 am by natalia nega

 

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Olhei no espelho e comecei a rir de felicidade! Tinha conseguido abrir a pele da semente e estava subindo dentro da terra. [...] Meu cabelo era uma dessas criações estranhas, incríveis, surpreendentes, de parar o tráfego – um pouco parecido com as listras das zebras, com as orelhas do tatu ou os pés azul-elétrico do mergulhão – que o universo cria sem nenhum motivo especial a não ser demonstrar sua imaginação ilimitada. [...] O teto no alto do meu cérebro abriu-se; mais uma vez minha mente (e meu espírito) podia sair de dentro de mim. Eu não estaria mais presa à imobilidade inquieta, eu continuaria a crescer. A planta estava acima do solo. Alice Walke

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